Um Gato em Paris (Une vie de chat) - 2011. Dirigido por Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol. Escrito por Alain Gagnol e Jacques-Rémy Girerd . Música Original de Serge Besset. Produzido por Jacques-Rémy Girerd. Folimage / França| Suiça | Países Baixos | Bélgica.
Se O Artista (2011) de Michel Hazanavicius é o contraponto perfeito para produções cinematográficas nas quais o avanço da técnica e os efeitos especiais se sobrepõem à trama e ao valor artístico, Um Gato em Paris (2011) de Jean-Loupe e Alain Gagnol, outro filme francês, é então a antítese perfeita das animações digitais produzidas atualmente por estúdios como Pixar e Dreanworks. O filme, feito praticamente sem computação gráfica, se vale do tradicional uso de telas e lápis coloridos e o resultado é surpreendentemente belo. Tanto O Artista, quanto Um Gato em Paris, nos fazem lembrar que tecnologias tidas como obsoletas podem ainda gerar obras geniais e inovadoras. Eles nos lembram ainda que a fantasia e a mágica das imagens em movimentos nem sempre estarão atreladas à espetacularização proporcionada pela tecnologia e que nada pode substituir o prazer de assistir uma história simples, cativante e cheia de poesia visual.
Um Gato em Paris não é do tipo de animação “recomendável á todas as idades”, não que ele possua temática ou linguagem adulta ou conteúdo desapropriado, mas por causa de seu estilo não tão convencional, que nos parece tão estranho à primeira vista. Tal sensação de estranhamento pode ser ainda maior nas crianças, dificultando assim a apreciação e compreensão da história e dos personagens. A trama do filme, é até bem simples, porém cheia de pequenas nuances, ela pode ser apontada como uma espécie de realismo fantástico, pois apesar de fantasiosa, a história aborda temáticas bem reais. O longa ainda se difere de outros filmes do gênero por não humanizar a personalidade do felino ao qual o título se refere. Dino, o gato protagonista, apesar de demonstrar uma inteligência atípica, não anda sobre duas patas e tão pouco fala. Os personagens humanos, ao mesmo tempo que vivem dilemas e situações típicas da vida adulta, se comportam na maioria das vezes como meninos. Esta caracterização não tão bem definida entre adultos e crianças é uma das principais características do filme, ela influencia diretamente na forma com que nós espectadores o decodificamos.
Zoé, a dona de Dino, é uma garotinha que deixou de falar desde que o pai, um policial, foi morto por um bandido cruel. Ela mora com sua mãe, Jeanne (voz de Dominique Blanc), uma atarefada delegada de polícia, que tem pouquíssimo tempo para dar a atenção que a filha precisa. Zoé fica aos cuidados de uma babá de caráter duvidoso, porém passa a maior parte do tempo sozinha, não é atoa que o gato Dino é melhor amigo dela, ambos não falam e apesar disso conseguem se compreender, naquilo que parece ser um pacto de silêncio mútuo. Todos os dias à noite o bichano sai para longos passeios pelas ruas de Paris, sua dona não sabe para onde ele vai, tão pouco com quem ele vai… Ele acompanha Nico (voz de Bruno Salomone), um ladrão de jóias, em aventuras noturnas pelos telhados de casas e prédios da cidade luz. Quase que por acaso, Zoe, Dino e Nico, acabam cruzando o caminho do mafioso Victor Costa (voz de Jean Benguigui), o bandido que matou o pai da garota.
Como eu disse, em Um Gato em Paris mesmo os personagens adultos se comportam como crianças quando expostos à determinadas situações, isto pode ser percebido no viés cômico do vilão Victor Costa (apesar de ele ser um personagem malvado), no medo que ele provoca na mãe de Zoé (ela o imagina como uma espécie de “bicho Papão”, um monstro com tentáculos com quem ela tem pesadelos) e até na aparente falta de motivos que pudessem levar Nico a se tornar um ladrão, afinal ele não é um personagem ruim, ele age como um garoto que não tem consciência de que o que está fazendo é errado... Toda a história parece ser contada partindo da perspectiva de uma criança; para os pequenos o que torna um personagem ruim não é o fato de ele transgredir uma lei e sim algum ato de crueldade que ele possa ter cometido, ou vir a cometer contra alguns dos personagens bons, isso explica as conotações de caráter distintas com que Victor e Nico, mesmo sendo ambos ladrões, adquirem no filme.
Esta visão quase infantil de uma trama que não é tão infantil assim (se é que me entendem) é o que torna o filme especial. Ele de fato não parece ter sido feito para crianças pequenas e sim para adultos e para aquelas mais crescidinhas, que poderiam compreender e digerir bem uma trama que aborda temas sérios e controversos como assassinatos, perda de um ente querido, banditismo, vinganças e traumas. O mais interessante é que Um Gato em Paris é capaz de transportar a nós adultos à uma espécie de idealização da infância perdida, um lugar onde a nossa maturidade se confronta com a criança que fomos um dia, um lugar de sonhos e fantasias, onde a vida e as pessoas são mais simples. Nesta viagem algo de belo e poético acontece, sutilmente somos confrontados acerca de nossos julgamentos, de nossa ética e de nossa tão presumida maturidade. Por que nós espectadores nos flagramos torcendo em favor de um dos ladrões (a quem nos afeiçoamos durante a história) e contra o outro (a quem repudiamos desde a primeira vez que aparece), sendo que são ambos criminosos?
Cada fotograma de Um Gato em Paris parece explodir em uma porção de cores, que se harmonizam entre si apesar das tonalidades fortes, criando assim quadros belíssimos. Ao assisti-lo preste atenção na sutileza dos movimentos dos personagens, nos detalhes do cenário e na forma com que o jogo entre sombra e luz é construído, fazendo com que cada ambiente pareça estár sendo iluminado à luz de velas. A trilha sonora do filme também é linda, ela ajuda a nos transportar para uma realidade bela, surpreendente e de uma belíssima poética, onde o nosso eu menino, embotado de emoções diversas, afronta a sabedoria do adulto que nos tornamos. Esta maravilhosa animação de Jean-Loupe e Alain Gagnol é a única capaz de subverter, com mérito real, o favoritismo de Rango (2011), que considero ótimo por outros aspectos, ao Oscar de Melhor Longa de Animação. Ultra Recomendado!








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